Você está em: Home, Noticias

Notícias

24
DEZ
Fábrica da Nestlé reacende polêmica sobre importação de café no Brasil

Lívia Andrade
Globo Rural

Na última quinta-feira (18/12), Paul Bulcke, presidente global da Nestlé, anunciou o investimento de US$ 200 milhões na primeira fábrica de cápsulas de café da multinacional fora da Europa. O empreendimento será construído em Montes Claros (MG), ao lado da unidade de Leite Moça da empresa, e será destinado à fabricação das cápsulas da linha de máquinas Nescafé Dolce Gusto. Na ocasião, Bulcke afirmou que 90% do café utilizado será do Brasil, mas frisou a necessidade de importar 10% de cafés de outras origens para a elaboração dos blends.

Estes 10% reacenderam a antiga polêmica sobre a importação de café verde de outras origens. A atual legislação brasileira impede a compra do grão cru de outros países com o argumento que o produto poderia trazer novas doenças e pragas aos cafezais nacionais. “Não sei se o Brasil tem rigor para o controle sanitário necessário”, diz Edgard Bressani, CEO do O’Coffee, grupo que tem mais de 1.000 hectares de café arábica em Pedregulho, no interior paulista. No entanto, países produtores como a Colômbia e Vietnã já importam sem prejuízo para o parque cafeeiro local. A situação traz à tona uma outra preocupação. Se a importação passar a ocorrer, dependendo da forma como for feita, poderá comprometer o lado mais frágil da cadeia: os cafeicultores brasileiros.

Os produtores de café são a favor da agregacão de valor à matéria-prima que eles produzem. Ao mesmo tempo, temem uma competição desleal, já que a legislação trabalhista brasileira é muito mais rigorosa que nos outros países produtores, o que torna o custo de produção do grão no Brasil mais alto. Na hipótese desses cafés de diversas origens começarem a ser importados com alíquota zero de importação, que é o pleito da indústria, isso poderá colocar em xeque a cafeicultura nacional. “Abrir as portas é dar um tiro no pé. A indústria não está preocupada com a produção nacional. Ela quer ter opção de comprar de quem estiver vendendo mais barato”, afirma Bressani.

No caso do café conilon ou robusta, variedade usada na indústria de café solúvel e também para elaboração de blends com o arábica, a situação é ainda mais delicada. “Somos contra porque não temos como concorrer com o conilon de Vietnã”, diz Luiz Carlos Bastianello, vice-presidente da Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel, a Cooabriel, que congrega mais de 3.600 cafeicutores capixabas. O Espírito Santo é o maior produtor de conilon do Brasil com uma produção de 9,3 milhões de sacas. “Na época da colheita, eu não consigo um trabalhador por menos de R$ 60 por dia. No Vietnã, eles pagam US$ 4”, explica.

Atualmente é possível a importação de cafés de outras origens, desde que torrado. O problema é que uma vez torrado, o café inicia o processo de oxidação, o que interfere na qualidade. Outro revés é a impossibilidade das indústrias e cafeterias trabalharem a torra que desejam. “Nós temos cafés de outras origens na Octavio. Nossos parceiros de fora torram os grãos e despacham em pequenos lotes no mesmo dia via aérea”, diz Edgard Bressani, CEO do grupo O’Coffee, a qual pertence a cafeteria Octavio.

O lado da indústria

A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) apoia toda iniciativa de construção de novas fábricas no Brasil e sempre se manifestou favorável à importação de café verde de outras origens. “Estamos numa posição estranha de não permitir a importação de grão verde, mas de importar gigantes quantidades de café torrado e moído que compõem os blends de cápsulas vendidas no mercado brasileiro”, diz Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Abic.

Segundo estatísticas da o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), de janeiro a novembro, o Brasil importou a cifra US$ 44,1 milhões de café torrado. Em contrapartida, as exportações da categoria no mesmo período foram de US$ 11,2 milhões. Um saldo negativo de quase US$ 33 milhões na balança comercial

De acordo Herszkowicz, o brasileiro está ávido por novidades e quer provar cafés de outros países. “Ao não trazer esta pequena quantidade de café verde de alta qualidade de outras origens, não fazemos estes blends e entregamos o nosso mercado consumidor para indústrias de outros países que ficam sem concorrentes em território nacional”, diz.

Maior valor agregado

A Associação Brasileira de Cafés Especiais, BSCA na sigla em inglês, apoia as iniciativas que agreguem valor e promovam os Cafés do Brasil. “Os conselheiros da BSCA entendem como positiva a instalação da fábrica da Nestlé no Brasil, desde que cumpridas à risca as intenções declaradas na carta assinada pela empresa”, diz Vanúsia Nogueira, diretora-executiva da BSCA.

O documento enviado pela multinacional traz itens como: 1) não importar café robusta; 2) iniciar a produção com 65% de café brasileiro e elevar este percentual, através de pesquisas no País, trazendo novas variedades em parceria com Embrapa; 3) exportar pelo menos três vezes o valor da importação; 4) colocar nas cápsulas que as mesmas são feitas com Cafés do Brasil, entre outros.

Com relação aos possíveis problemas fitossanitários, Vanúsia acredita que o Governo Federal tem estrutura e está preparado para realizar a fiscalização. “No caso específico da Nestlé, até onde sei, o volume será pequeno e o café virá de origens que já exportam para diversas partes do mundo com boa aceitação, como Colômbia, Quênia e Etiópia”, diz a diretora.

A assessoria de imprensa da Nestlé informou que nenhuma decisão foi tomada a respeito da possibilidade de importar café. No entanto, ressaltou que a empresa está trabalhando em parceria com vários agentes da cadeia produtiva e do governo e está confiante em um resultado positivo.

Veja notícias

05
FEV

Ministra afirma que café será prioridade na agenda do Governo

15
JAN

Qualidade dos cafés brasileiros melhorou, diz pesquisa

07
JAN

Soja: cuidados na fase de florescimento podem incrementar colheita em 30%

26
NOV

Safras eleva previsão de produção de soja 18/19 do Brasil a recorde de 122,2 mi t