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03
FEV
Seca não impede nova safra recorde de soja

Anna Carolina Papp
O Estado de S. Paulo

Já foi dada a largada para a colheita de soja no País e, mais uma vez, apesar de entraves climáticos e logísticos, o campo promete prosperar. Segundo estimativa da Agroconsult, o Brasil terá mais um ano de safra recorde do grão, com 91,5 milhões de toneladas - um aumento de 11% na comparação com a safra do ano passado. A área plantada deve ser 7% maior, alcançando 29,7 milhões de hectares.

O volume da produção, no entanto, ficará aquém do potencial das lavouras e das expectativas no início do plantio, sobretudo por causa da estiagem que assolou várias regiões em dezembro.

A região percorrida pelo Estado, do sul de Mato Grosso do Sul ao norte do Paraná, foi marcada pela irregularidade: enquanto alguns produtores comemoravam o aumento de produtividade das terras, com boa parte da produção já vendida a bons preços, outros nem sequer conseguiram cobrir os custos da plantação por causa da seca.

Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) estima perda de 300 mil toneladas em relação ao que fora previsto, o que representa queda de mais de 5% da produtividade. "Mesmo assim, esperamos nova safra recorde, de 6,1 milhões de toneladas, por mérito do agricultor, que investiu mais e se protegeu melhor contra pragas, que não causaram prejuízos significativos", diz Maurício Saito, presidente da associação.

O produtor de Sidrolândia Juliano Schmaedecke é um dos que se assustaram com a estiagem. "Fiquei 18 dias sem chuva, voltou a chover e depois mais 16 dias de seca", diz. "Não tive perda porque em janeiro choveu bem, mas muitas pessoas ficaram até 45 dias sem chuva e devem ter perda de 20%."

Juliano conseguiu fechar 70% da venda de sua produção antecipadamente, de R$ 53 a R$ 55 por saca. Gaúcho, o produtor chegou a Mato Grosso do Sul com a família em 1976. "Aprendi tudo com meu pai, que sempre foi produtor. Mas faz 14 anos que eu estou em ‘carreira solo’. Eu gosto muito de estar na área rural."

Outro agricultor animado com a safra é Dulcimar Cofferi, o "Gauchinho", que espera colher 60 sacas por hectare. Diferentemente da maioria dos produtores, que negociou antecipadamente de 15% a 25% da produção, Gauchinho já vendeu quase toda a safra, a R$ 60 por saca. "Decidi apostar na soja convencional (não transgênica), pois, além de ser uma variedade altamente produtiva, estão pagando R$ 7 mais na saca por ela", diz Cofferi.

A área rural no Paraná também apresentou uma lavoura muito heterogênea. No norte do Estado, o plantio começou mais cedo - o que se tornou custoso para muitos produtores. "Algumas regiões foram afetadas por falta de chuvas e isso prejudicou muito as lavouras - sobretudo as de ciclo precoce", explica Fábio Meneghin, coordenador do Rally da Safra, da Agroconsult. "A região sudoeste, entre Guaíra e Toledo, deve ter produtividade média menor - coisa que não é vista em Cascavel, onde a lavoura tem excelente potencial - inclusive alguns produtores já começaram a colher e a plantar o milho safrinha."

Um dos agricultores prejudicados foi Luís Carlos Borian, de 60 anos. Enquanto a estrada alternava plantações ainda verdes e as de tom mais bege, prontas para colheita, de longe a fazenda Nossa Senhora da Aparecida, em Jussara, exibia um tom acinzentado pela seca. "O calor nos castigou", diz ele, ao observar a colheita da plantação, que não deve render mais de 25 sacas por hectare. No ano passado, o agricultor, que nasceu em Maringá, colheu 60 sacas na mesma terra, herdada de sua mãe. "Mal dá para cobrir o custo", lamenta Borian, que agora aposta todas as fichas no milho safrinha.

Para quem plantou mais tarde, as perspectivas são mais animadoras. Mesmo com parte do Estado afetada pela estiagem, o Paraná - segundo maior produtor de soja do País, atrás de Mato Grosso - deve colher nesta safra mais de 16,7 milhões de toneladas do grão.

Outros problemas. O ritmo acelerado da produção agrícola escancarou os problemas de infraestrutura no País. No entanto, o produtor parece já ter se conformado com os gargalos e hoje elenca outros problemas. Grande parte se queixa da dificuldade em encontrar mão de obra especializada no campo, sobretudo por conta da tecnologia das máquinas mais recentes.

"Nos últimos dois anos, o produtor investiu muito em maquinário, pois o juro baixo foi um atrativo. De três colheitadeiras pequenas, você passa para uma grande", diz Maurício Batezini, de 33 anos, agrônomo e produtor em Dourados. "Mas o desafio é a capacitação para usar essas máquinas. Isso afeta diretamente o andamento do negócio", diz ele, que tem sete funcionários.

Enquanto aguardam melhorias nas rodovias de escoamento, como a duplicação da BR-163, os produtores começaram a investir mais na construção de armazéns. No trecho percorrido pelo Estado, foi possível observar silos novos ou em construção, incentivados por um programa de financiamento lançado em julho pelo governo federal.

Com juros de 3,5% ao ano, o produtor tem 15 anos para financiar um armazém. "Até agora, foi concedido R$ 1,6 bilhão em crédito pelo programa, dos R$ 5 bilhões previstos", diz Wilson Vaz de Araújo, diretor de economia agrícola do Ministério da Agricultura. "Para os próximos cinco anos, o objetivo é destinar R$ 25 bilhões a produtores."

Se o aumento de estoque exige novas estruturas para compensar o déficit em armazenagem do País, também lança pressão sobre a próxima safra. "O cenário de preços internacional é baixista, por causa da safra recorde no Brasil, e provavelmente também na Argentina, e o aumento da área plantada nos Estados Unidos. Então, o preço tende a cair em dólares no mercado internacional", diz Meneghin. Os produtores, por isso, voltam os olhos para o câmbio, que poderia compensar parte da queda. "Temos de tomar cuidado com o dólar", afirma Saito, da Aprosoja.

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